Adolescente atendido pela Defensoria encontra na literatura caminho para transformar a própria vida

Jovem de 17 anos que cumpria medida socioeducativa realiza sonho de escrever livro autobiográfico. Obra será publicada ainda neste ano




O que são os sonhos para você? Para Herinque de 17 anos, os sonhos são a janela para uma vida nova. Vindo de uma difícil realidade, ele percorreu caminhos tortuosos ainda muito jovem que o levaram a cumprir medida socioeducativa no Centro Socioeducativo Senador Raimundo Parente, em Manaus. Mas o que poderia ser encarado como punição acabou se convertendo em oportunidade.


No centro, com apoio da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) e de todo sistema socioeducativo da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Henrique despertou em si o gosto pela literatura e realizou o sonho de escrever um livro onde narra a própria vida, para inspirar outros adolescentes. Intitulada “A vida é um desafio”, a obra será publicada em breve. A assinatura do contrato com a editora foi o ponto alto de uma cerimônia realizada esta semana, e que contou com a presença de autoridades federais e estaduais.


Henrique cresceu em Manaus sob os cuidados dos avós. A avó e o avô deficiente visual eram a única família presente. Mas aos 13 anos, o adolescente perdeu a avó, que faleceu, e se viu praticamente sozinho, uma vez que o avô também necessitava de cuidados e não tinha condições de oferecer ao rapaz a estrutura familiar de que precisava.


Sentindo-se só e sem alternativas, Henrique “se perdeu nesse mundo de ilusão”, como ele próprio chama o envolvimento com as drogas, e acabou cumprindo medida socioeducativa. Passou um ano e cinco meses internado no centro socioeducativo. E foi nesse momento que ele conheceu a defensora pública Juliana Lopes, coordenadora do Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente (Nudeca) da DPE-AM, que o acompanhou em seu processo.


“A presença dela foi bastante importante na minha vida, sendo uma pessoa boa. Não só como minha defensora. Ela era muito mais do que isso para mim. Eu enxergava ela muito mais como uma amiga, porque ela tem um carinho por mim e eu tenho um carinho por ela. Ela me acompanhou por um bom tempo”, conta Henrique.


Juliana Lopes explica que a Defensoria acompanha todos os adolescentes que estão cumprindo medida socioeducativa . “O Henrique é desses adolescentes, estava na unidade de internação Senador Raimundo Parente e, na época, a assistente social contou que ele estava interessado em escrever um livro. Ele foi acompanhado por toda a equipe da unidade e via Sejusc, chegamos a esse momento tão esperado”, explica.


No livro, Henrique conta um pouco daquilo que viveu. “Coisas que adolescentes de hoje em dia às vezes fazem, se perdem nesse mundo de ilusão, mas que cada adolescente tem um motivo pra fazer isso. Só que as pessoas, elas não perguntam porque ele faz aquilo, as pessoas só criticam, mas não chegam na porta de casa e perguntam se a gente precisa de alguma coisa, de uma ajuda”, diz.


O jovem também revela o que espera como resultado de seu livro. “Eu espero pelo menos plantar uma sementinha, fazendo os adolescentes terem uma reflexão sobre a vida e o que realmente querem, e decidir o rumo da vida. Decidir se quer levar a vida que tá levando, ou quer parar por ali e fazer uma outra caminhada, que é a mais difícil, a mais sofrida, mas que, lá na frente, trará as conquistas”.

*Rede de apoio*

No centro, o jovem teve acompanhamento de psicóloga, assistente social, pedagogos e técnicos que identificaram o talento para a escrita e o sonho de escrever um livro. “Eu tinha um sonho, mas tinha medo de por em prática. Já tinha um sonho de expor a minha história para os outros adolescentes. Aí, a diretora do centro socioeducativo falou: ‘por que tu não escreve a tua história?’. Aí eu comecei”, lembra.


Nesse processo, Henrique leu o livro ‘Você é Insubstituível’, do psiquiatra e escritor Augusto Cury, que “fala do amor pela vida que habita cada ser humano”. Para ele, esta leitura foi transformadora. “Eu tava pensando em escrever a minha história, mas ao mesmo tempo eu tava com medo. Aí, li esse livro. E, através desse dele, veio a inspiração. O livro é muito bom, eu recomendo. Esse livro levantou o meu astral, eu me senti um vencedor. Não importavam as condições em que eu estava, mas sim estar feliz por ter a vida. Aí, eu botei em prática e comecei a escrever”.


A então diretora do centro deu a Henrique um caderninho que ela mesma montou e grampeou, para que ele escrevesse quando tivesse vontade, quando viesse a inspiração. E, assim, o adolescente foi colocando no papel suas tristezas, as dificuldades da vida, as escolhas ruins, mas também o desejo de mudança, a vontade de buscar novos caminhos.


“Foi um passo a passo. No primeiro momento, começamos a fazer um trabalho de estimular e ele começou a escrever. Ele me disse: ‘dona Rose, eu gostaria que a minha história envolvesse outros meninos. Que esses outros meninos conseguissem ter uma força para mudar. Eu queria poder falar com eles’”, conta a psicóloga Rose Nascimento, que atua no centro socioeducativo.

Tudo a favor

Além do apoio da defensora e da equipe do centro socioeducativo, Henrique contou ainda com uma ajudinha da sorte na realização de seu sonho. Já havia um interesse da Sejusc em estimular os jovens a escrever e também contatos da secretaria com representantes da editora paulista Miolo Mole, especializada em literatura infanto-juvenil.


A história de Henrique conquistou a editora e, nesta semana, foi realizada a assinatura do contrato para a publicação do livro, durante o encerramento da segunda etapa de capacitação do programa Criança Protegida, do Governo do Estado, realizado no Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques (CCAVV), em Manaus.


“Não sei nem explicar o que tô sentindo nesse momento, porque são várias emoções, querendo chorar, é felicidade, e tudo ali se embola. Tô até nervoso, nem dormi essa noite”, disse Henrique minutos antes de subir ao palco para discursar ao lado da ministra da Mulher, da Família e dos Direito Humanos, Cristiane Britto, do governador Wilson Lima e outras autoridades.


“É muito gratificante a gente presenciar esse dia tão importante. Estou superansiosa para o lançamento do livro e tenho certeza do futuro brilhante do Henrique”, afirmou a defensora Juliana Lopes, que subiu ao palco a pedido do jovem.


Em seu discurso, o jovem se emocionou, disse que não acreditava no que estava acontecendo e agradeceu por todo o apoio dedicado a ele. “Meu sentimento é de gratidão a todas as pessoas que apoiaram e acreditaram intensamente em mim”, afirmou.

Vida nova

Após um trabalho de resgate realizado pelo sistema socioeducativo com apoio da defensora Juliana Lopes, Henrique foi acolhido por pais socioafetivos, a madrasta que era casada com seu pai biológico quando ele era criança e o atual marido dela, que o rapaz chama de tio. A família, que mora em Manacapuru, inclui também a meia-irmã, filha da madrasta com o pai dele.


“Agora, eu tô focando nos meus estudos, que é o meu motivo principal. Eu faço o primeiro ano do ensino médio. E, de vez em quando, eu ajudo meu tio, que é mecânico de barco. Ganho uns trocados e é suficiente pra ajudar”, afirma Henrique.


O jovem revela que está começando a escrever outro livro, que deve ser intitulado “Um Grande Brilho”, em que ele conversa com uma estrela. “Já escrevi duas páginas. É em sentido figurado, como se eu conversasse com uma estrela”, conta. Sobre seguir carreira de escritor, diz apenas: “vou ver no que dá. Nem sempre gostei de escrever, mas aprendi a gostar”.


Os pais socioafetivos se dizem felizes e orgulhosos. “Para mim, é muito importante, pela situação em que ele estava de risco e agora voltar para a sociedade. Estou muito feliz pelo sucesso dele. Ele está bem transformado. É um rapaz alegre e tudo o que faz, faz com muita dedicação, principalmente os estudos. Ele faz de tudo para não faltar nenhuma aula e eu faço de tudo para isso, vou buscar e deixar ele na escola”, diz o pai.


“É muito gratificante ver ele realizando um sonho, me dá até vontade de chorar, tanto que ele queria. É um sonho que ele tá realizando, por tanta coisa que ele passou. Não convivi com ele quando era pequeno e tô convivendo agora, há uns quatro, cinco meses, e fico feliz por isso. Está sendo uma ótima experiência, ele é muito obediente. Estão sendo bons esses meses que ele está lá em casa”, afirma a mãe.

Henrique afirma que a presença de todos os envolvidas no seu desenvolvimento e acompanhamento socioeducativo foi essencial para a vida dele. “Eu me sentia pra baixo e eles me botaram pra cima. E comecei a me sentir pra cima, me ergui. Muitos adolescentes que estão perdidos precisam de uma orientação e de uma motivação. É disso que eles precisam”, conclui.

Texto: Márcia Guimarães

Fotos: Bruno Zanardo/Secom

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